A educação, as empresas e as emoções

À nossa volta tudo parece menos bem. Sentimos as angústias e as frustrações de quem nos rodeia. O ódio e a raiva dos seus argumentos. Queremos ajudar da melhor maneira mas ninguém quer ouvir. Conversamos sobre possíveis soluções mas ninguém quer entender. "Porquê?" Dizia eu quando me deparava com tais inquietudes.

Uma base militar da Marinha foi notícia quando a própria gestão foi mudada. Antigamente as pessoas tinham fracos desempenhos nas suas provas porque a forma como os seus instrutores comunicavam era muito agressiva, muito autoritária e isso desmotivava os recrutas. Quando o sistema da gestão foi mudado, a própria aprendizagem também mudou. Começou por haver uma maior motivação quando os próprios instrutores começaram por transmitir mais energia através do afecto e de elogios. O próprio tom de voz era electrizante e inspirador perante os desafios que lhes propunham. Os recrutas sentiam-se valorizados e isso gerava um energia positiva que partilhava pelo grupo todo. Havia mais confiança e auto-estima. "Eu agora sinto-me bem aqui" dizia um recruta.

As expressões faciais, os movimentos, os gestos que as pessoas demonstram, o medo, a imposição perante aqueles que os escutam, a forma de falar, andar ou sentar revelam algo sobre quem nós somos e sobre o que sentimos, isto, porque reflecte-se na maneira como vemos a realidade. Muitas das vezes não estamos cientes das mensagens contraditórias que transmitimos: falamos uma coisa, mas a nossa linguagem corporal revela outra e é importante desenvolver capacidades emocionais como a auto-consciência: ter a noção dos nossos comportamentos, a consciência emocional: identificar as nossas proprias emoções e as dos outros, o auto-domínio: adaptar às situações e conseguir gerir as nossas próprias emoções.

O Ser Humano é um Ser fantástico por si só, imensamente complexo e que possui capacidades que, algumas vezes, não temos a consciência como usufruir delas. Todos nós podemos superar desafios, construir poderosos equipamentos, realizar grandes proezas, resolver os mais variados cálculos. Contudo, deixamos influênciar-nos pelas situações mais simples onde parámos completamente sem saber o que fazer e muitas das vezes escolhemos o caminho fazendo decisões erradas.

Como gosto bastante de filosofia e ciências sociais nao podia deixar de pesquisar sobre como é que os filósofos e os cientistas à uns séculos atrás pensavam e agiam. E descobri que no século XVII quando René Descartes publicou, em 1637, o livro Discours de la Méthode, o matemático e filósofo francês afirmava "Puisque je doute, je pense; puisque je pense, j'existe" e, em outro momento, "je pense, donc je suis", traduzido para o português "somos humanos porque pensamos" refletiu-se na maneira como se comportavam antigamente onde pude analisar que a sociedade lidava uns com os outros através da razão e do conhecimento adquirido como por exemplo, distinguiam-se no domínio das línguas clássicas, do raciocínio matemático, das ciências ou da filosofia e o principal factor no desenvolvimento humano era somente o raciocínio, a concentração e a memória.

Mas, essas funções cognitivas, desempenham um papel fundamental para a maneira como nós agimos. Termos habilidade de sermos independentes é fundamental: Decidir, escolher, actuar, são verbos que têm a capacidade de gerir e de planear o que queremos, a capacidade de tomarmos atenção ao que é melhor para nós e daquilo que realmente gostamos e sentimos bem. Além disso, temos de compreender que o que fazemos, tanto as atitudes negativas quanto às atitudes positivas, relacionam-se na maneira como interagimos uns com os outros e é preciso saber sermos resilientes e consciêntes para que as emoções e os actos negativos dos outros não nos afectem, isto porque somos constantemente influenciados pelas emoções dos outros. É preciso ter "estofo" para lidar com as atitudes menos boas. Uma certa coragem para prosseguir com os nossos valores. O que quero dizer é que os nossos comportamentos e atitudes podem dificultar o nosso raciocínio lógico quando confrontados com emoções negativas, o que resulta na interferência da nossa aprendizagem quer a nível pessoal quer nas nossas relações intrapessoais.

Para compreenderem a importância das emoções no nosso desenvolvimento pessoal e nas nossas relações com os outros, é importante salientar que devemos auto-disciplinar-nos, ser inteligentes emocionais, isto é, conseguirmos identificar os nossos proprios sentimentos e os dos outros, conseguirmos motivação e saber gerir bem as nossas emoções, praticar o auto-controlo e a empatia e desenvolver uma aceitação incondicional de nós mesmos e dos outros.

Segundo estudos da neuropsicopedagogia, as necessidades de afecto potenciam e influênciam a maneira como interagimos, aprendemos e evoluímos. É através de uma aprendizagem rica em experiências isto é, é através de processos de mudança, de conhecimentos, informações e comportamentos positivos que adquirimos, que levam-nos a estados emocionais, neurológicos, relacionais e ambientais gratificantes. São estas experiências que nos levam a compreender as coisas de forma intrínseca onde somos valorizados para assim prosseguirmos com mais motivação os nossos conhecimentos/objectivos.

O livro "Cérebro aprende pelo afecto e emoção" da professora Marta Relvas explica que, a maneira como aprendemos é um mistura entre as capacidades cognitivas como a memória, atenção, concentração e as capacidades afectivas/ emocionais que se relacionam com as necessidades (interesses e desejos) através de estímulos intrínsecos (neurotransmissores/hormonas) e extrínsecos (informações externas do ambiente) que ocorrem no nosso cérebro.

Inscrevi-me numa formação sobre técnicas de atendimento a partir do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) em Matosinhos, Portugal onde conheci a formadora Georgina Picotez que me deu a conhecer a palavra Andragogia. Aliás, ela mostrou-me o que quer dizer ao longo das suas sessões. Começamos por ser desafiados através de jogos didáticos a apresentar-nos individualmente a frente de todos, a falar um pouco sobre nós próprios, o que fazemos e o que gostariamos de fazer, as nossas experiências, quais são os nossos pontos fortes, as oportunidades que queremos, as nossas fraquezas, as vulnerabilidades que pretendemos desafiar, os nossos objectivos, a nossa missão de vida, os nossos valores etc. Ao longo de toda a formação a formadora conseguiu motivar-nos através da sua capacidade afectiva, a sua dinâmica, optimismo e de conseguir conhecer individualmente cada um de nós para se adaptar às nossas dificuldades. Começou por contar experiências da sua vida para que tentassemos compreender o seu ponto de vista o que ajudou a potênciar as capacidades de cada um. Para compreenderem o conceito de Andragogia, foi Malcolm Knowles em 1970 que creditou o termo para definir a educação para adultos mas foi o educador Pierre Furter que em 1973 definiu como uma educação ampla do ser humano para qualquer idade. Ele considera que a experiência é a fonte mais rica para a aprendizagem onde são motivados a aprender conforme vivenciam necessidades e interesses que os irá sastifazer nas suas vidas.

Se conseguirmos educar as nossas emoções e usa-las eficazmente na aprendizagem e em nós mesmos estamos a criar um maior controlo sobre os impulsos, sobre situações agressivas e permitimos ser mais sociaveis. Ao aprender a comunicar de forma mais saudável o nosso estado emocional, desenvolvemos relações mais positivas, motivadoras e inspiradoras ao longo da vida, com base nas experiências vividas, no respeito e na assertividade. Ao permitir praticar a Inteligência Emocional estaremos a dar-nos a oportunidade de evoluir de forma benéfica e tranquila protegendo contra possíveis perturbações de foro psicológico, como ataques de panico, depressões e ansiedades tornando-nos mais resilientes a eventuais situações criticas.