Negação, Assunção, Aceitação e Opção

A homoafetividade, a heteroafetividade, a androgenia, a transgeneridade, bem como qualquer outra, são apenas variantes de configurações da sexualidade humana. Outra questão é o transtorno que determinada configuração pode trazer a quem a possui segundo o ambiente, cultura ou confissão religiosa a que pertence.

Tudo parece indicar que a homossexualidade, e outras "sexualidades" não "normativas", são mesmo configurações naturais da sexualidade humana. Esse tem sido o argumento para aliviar os corações de milhões de homossexuais, pais, mães e familiares de homossexuais. Ou seja, se nascem ou nascemos assim, portanto é natural, então não é errado e a homossexualidade não é promiscuidade ou pecaminosa, não têm ou não temos culpa e por aí vai.
De fato tudo aponta para o fato de que a homossexualidade, por exemplo, é uma configuração natural e saudável da sexualidade humana e não se deveria ter formado, sob nenhuma circunstância, a convicção que se formou no decorrer da história humana, de que outra configuração de sexualidade que não a heterossexual fosse perniciosa ou desviante. Mas infelizmente, assim se deu.
Por mais que eu defenda as posições atuais dos estudos a respeito, por incrível que pareça é frequente deparar-se com o preconceito da homossexualidade "aceita" por ser nata e, portanto, inopcional.
Inicialmente gostaria de discorrer um pouco sobre a hipótese da homossexualidade nata, já que o que importa é a "aceitação" da natureza não heterossexual.


A grande questão é: se alguém nasceu baixinho e não aceita isso sob nenhuma circunstância, entretanto suporta, o faz por falta de opção, pois se pudesse, mudaria sua fisiologia. Indubitavelmente essa inaceitação tem relação direta com inconveniências ou traumas que sua estatura lhe causou e esta é a grande resposta. O fato é que as coisas relacionadas à sexualidade são questões de vida ou morte em grande número de casos. Portanto, a solução para a aceitação está na dissolvissão das causas do repúdio. Infelizmente esse processo é na maioria das vezes doloroso, árduo e lento.
Mas, do meu ponto de vista, a compreensão teórica e a abordagem lógico-filosófica são um primeiro passo neste longo caminho. Por isso seguirei com algumas considerações.
Ainda que eu mesmo me utilize da palavra aceitação, palavra muito frequente no contexto da homossexualidade, em última análise, me parece que tal palavra é completamente inadequada para se se referir à situação. Noto que normalmente o processo que envolve a pessoa homoafetiva na relação com sua natureza ou orientação sexual se concentra em fazê-lo aceitar esta natureza ou orientação ou, de outro modo, fazê-lo aceitar-se.


Parece-me extremamente inadequadas, no entanto comuns, terapias estruturadas num processo de aceitação, a semelhança do que se faz em casos de algum tipo de deficiência física, ou seja, aceitar o problema, viver bem com o problema e até superá-lo. Entretanto, nestes casos, estamos tratando de fato de um problema, de uma inconveniência. Não é este o caso da homoafetividade, por mais que vozes ainda se levantem para defender o contrário. Em princípio, algo só é passível da necessidade de aceitação se for um elemento não intrínseco à natureza do Ser ou se, por alguma razão, se viesse a crer e aceitar que um determinado elemento natural não o fosse. Explico-me: quando se passou a usar o termo natureza sexual, ou seja, natureza homoafetiva, natureza heteroafetiva, se quis com isso eliminar toda a possibilidade de se ver a necessidade de a homossexualidade, por exemplo, ter de ser aceita pela pessoa como se não natural, um problema ou transtorno fosse.


A homoafetividade, a heteroafetividade, a androgenia, a transgeneridade, bem como qualquer outra, são apenas variantes de configurações da sexualidade humana. Outra questão é o transtorno que determinada configuração pode trazer a quem a possui segundo o ambiente, cultura ou confissão religiosa a que pertence. Eu costumo ilustrar o que acabo de expor com as seguintes perguntas: é natural ser branco? É tão natural que a pergunta parece estúpida. É inconveniente ser branco? É ainda mais estapafúrdia esta pergunta. Entretanto, é natural ser negro? Tanto quanto ser branco. É conveniente ser negro? Já foi tão inconveniente sê-lo - e, inacreditavelmente, para muitos continua sendo - que muitos viram em sua cor uma maldição e certamente em momentos de desespero teriam aceitado mudar de cor se pudessem. Outros tantos viram e ainda veem na cor dos negros um defeito, um sinal de inferioridade e até razão para classificá-los como sub-raça. Poderíamos fazer as mesmas perguntas substituindo as palavras branco e negro por homem e mulher respectivamente ou heterossexual e homossexual. As respostas deverão manter-se as mesmas apenas concordando as palavras-chave da resposta com as da pergunta. Mas, não me surpreende que grande parte da sociedade ainda não seja capaz de dar as mesmas respostas a estas perguntas. O que quero dizer com isso é que na medida em que uma pessoa negra, por exemplo, cresse - como ocorreu e ainda ocorre - que sua natureza fosse inconveniente, ou pior, um "defeito", ela certamente precisaria "aceitar" que é negra e na pior das hipóteses pensaria em mudar de cor se pudesse. Ou seja: só precisamos aceitar aquilo que não é natural ou que cremos não ser natural ou também que cremos ser inferior ou defeituoso no Ser e então se me for possível buscarei reverter ou eliminar.


Como eu disse inicialmente, não se trata de aceitar uma condição, viver bem com ela porque não há forma de reverter. Aceitar ainda não é o fim da linha. O que eu exponho aqui é a reivindicação das ciências, das correntes psicanalíticas de que nossa orientação sexual, seja ela qual for, é um elemento intrínseco a nossa natureza, por tanto não se trata de aceitarmos as orientações não heterossexuais, mas sim aceitarmos um novo (na verdade nem tão novo assim) conhecimento sobre a natureza humana e, portanto, compreendê-la e assumi-la como sua natureza, recebê-la como a natureza com a qual nascemos para sermos felizes e com ela alcançar a plenitude de nossas existências e nela colher os frutos que esta vida nos reserva, do mesmo modo que deveria ser se qualquer outra fosse a nossa natureza. Penso que por algum meio terapêutico ou individual devemos ser capazes de construirmos virtualmente, mas com efeito real, diante de nós duas portas: a da homossexualidade, por exemplo, e a da heterossexualidade. Em seguida colocarmo-nos diante dessas duas portas e chegarmos a um momento em que nada nos faria optar por outra porta que não pela nossa. Nós precisamos, sim, compreender que se trata de natureza, portanto nata, mas por hora não basta apenas assumirmos, aceitarmos. Nossa felicidade depende de nossa OPÇÃO.
Mas, agora imaginemos que todas as evidências e estudos estejam errados e de fato a homossexualidade, assim como outras configurações da sexualidade, venham a ser de fato comportamentos adquiridos, aprendidos, desenvolvidos por opção, uma preferência? Voltaria a homossexualidade à condição de opção de vida promíscua, pecado, abominação? Seja a homossexualidade natural ou não, é necessário que encontremos a origem da carga negativa que essas configurações da sexualidade receberam. Quando encontramos essa origem, ou seja, seus detratores, veremos que não são minimamente qualificados para a função que se outorgaram.
Concluindo, o que sou e vivo hoje jamais me foi um sonho, pois por mais que tenha sonhado sonhos impossíveis, jamais me atrevi sequer a sonhar o sonho que hoje se tornou realidade.

Este texto foi escrito por Andi Wagner e autorizado pelo mesmo.

https://andiwagner.pt/2018/03/13/negacao-assuncao-aceitacao-opcao/